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Entrevista ao jornal NEXO

01/12/2018

Por Juliana Domingos de Lima

(Link para a matéria publicada no site NEXO JORNAL)

Este artista pinta cenas corriqueiras da vida brasileira
 

Pintor e desenhista de São Bernardo do Campo, em São Paulo, representa o cotidiano em paisagens, retratos e naturezas mortas com um toque contemporâneo que tem nas redes sociais sua principal galeria.

Desde 2016, Rodrigo Yudi Honda, artista de 30 anos que nasceu e vive em São Bernardo do Campo, na região Metropolitana de São Paulo, mantém uma página no Facebook por meio da qual compartilha seus trabalhos. Foi em 22 de junho de 2018, porém, com a postagem da obra “Feriado Nacional”, durante a Copa do Mundo, que suas pinturas e desenhos ganharam projeção na rede social. Em novembro de 2018, a obra conta com quase quatro mil reações e cerca de cinco mil compartilhamentos. Foi muito mais vista e comentada do que a média dos trabalhos postados até então.

Formado em Arquitetura e Urbanismo pela USP (Universidade de São Paulo), Honda se dedica exclusivamente à pintura e ao desenho desde 2014. Sua técnica predominante é a pintura a óleo. Já seus temas, propositalmente banais: o próprio quarto desarrumado, um vitrô de banheiro, um ponto de ônibus, uma rua de periferia, um homem que dorme em um bar de mesas de plástico, pão e caixa de leite sobre a mesa em uma reconhecível cena matinal.

Honda falou ao Nexo sobre seus trabalhos, a escolha da pintura como linguagem e a recepção pelo público.

 

NEXO: Quais são os seus temas? O que você pinta?

 

RODRIGO YUDI HONDA: Não tenho fixação por nenhum tema específico. Gosto das coisas comuns e que nos instigam por serem comuns. Pode ser um objeto, uma pessoa, um bicho, um cenário urbano...

Por que esses cenários te interessam? Eles existem ou são invenção?

 

Na maioria das vezes, são cenários imaginados, e portanto existem na imaginação. Chamo de “imaginação” o universo das coisas ainda ausentes, enquanto a “realidade” seria o universo das coisas já presentes. Acredito que a imaginação só se sustenta quando fundada na realidade.

 

Qual a história do painel que você expôs na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo em 2016? Por que pintar um rebanho?

 

Quando me surgiu a oportunidade de participar de uma mostra coletiva na ALESP [a Assembleia Legislativa paulista], achei que o contexto daquele espaço pedia algo simbólico.
 

O rebanho me pareceu um símbolo interessante, pois ele é aberto o suficiente para não ser uma imagem panfletária, e clara o suficiente para preservar uma conotação política.

 

Qual a relevância da pintura hoje? Por que você escolheu essa linguagem?

 

Com as câmeras portáteis e as redes sociais, vemos uma enxurrada de fotos e vídeos diariamente. E é óbvio que, com isso, a imagem tende a se banalizar a ponto de nada mais gerar encanto nas pessoas. Acho que isso gera um desafio para o artista visual contemporâneo: como criar imagens especiais num mundo onde nada parece especial? A pintura, em particular a realista, acaba sendo uma possibilidade de resgatar o olhar contemplativo e a aura da imagem. Ela é uma forma de burlar essa cultura regida pela linguagem instantânea das máquinas, sendo uma exaltação da experiência e da sensibilidade humanas em seu nível mais profundo.

 

O que você apontaria como fundamental na formação do seu olhar?

 

A gente é uma combinação complexa de experiências, e não dá pra isolar os fatores e dizer que “essa característica vem daqui” e “essa outra vem dali”.
 

O que posso afirmar objetivamente é a importância que meus professores Maurício Takiguthi e Carmelo Gentil tiveram em minha formação artística. Devo muito do que sei a esses mestres.

 

Minha formação de arquiteto e urbanista sem dúvida influenciou de alguma maneira meu olhar sobre as coisas, mas não sei apontar exatamente como e em que medida.

 

Acredito que o que eu faço hoje seja uma espécie de “anti-arquitetura”, pois enquanto os arquitetos projetam as coisas dentro do que elas podem vir a ser, eu trabalho com as coisas dentro do que elas são.

 

A cidade que eu tenho interesse em retratar não é a cidade que sai da prancheta do arquiteto, é a cidade espontânea e do acaso. Os arquitetos projetam paredes brancas e eu retrato as suas rachaduras.

 

O que as redes sociais têm feito pelo contato entre o artista e seu público hoje?

Meus trabalhos têm tido uma ótima visibilidade nas redes sociais. Uma visibilidade que eu não conseguiria ter em nenhum salão de arte ou galeria. Isso não é algo planejado. Acontece espontaneamente, graças ao engajamento das pessoas que se identificam com meu trabalho. Isso me deixa bastante otimista, pois desse jeito eu não fico tão subordinado aos interesses do “sistema da arte”: galerias, salões, críticos, universidades. Consigo divulgar e vender meus trabalhos sem depender tanto dessas coisas.
 

Acho que a internet é uma possibilidade libertadora para os artistas, que podem encontrar o seu público, e para o público, que pode encontrar os seus artistas.

 

Quem se identifica com as suas pinturas?

 

Fico bastante surpreso com a diversidade de público que tem se identificado com meu trabalho. Tenho recebido comentários de pessoas de todo lugar do Brasil, de todas as idades, profissões, níveis de escolaridade, posições políticas. Acho que isso acontece porque, em essência, eu não sou diferente dos outros. O que eu faço não é um recorte de classes e também não quero me exaltar como um sujeito exclusivo destacando minhas particularidades. Pelo contrário, procuro, através de meu trabalho, compreender o que há dentro de mim que está dentro de todos.

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